Reflexões sobre como (não) se candidatar a uma empresa

João Gomes Mota, Administrador de Albatroz Engenharia

Preâmbulo

Depois de ler milhares de cartas de apresentação e de currículos qualquer pessoa percebe que há elementos comuns que se repetem e que ajudam a servir de âncora para a leitura e avaliação dos candidatos que os enviam.

No meu caso, que sou engenheiro electrotécnico especializado em robótica, sou tentado, por formação profissional, a tratar o problema como um caso de reconhecimento de padrões e uso métodos inspirados nas ferramentas da minha "arte". E, ao fazê-lo, saltam à vista os pontos positivos e negativos que acabam por influenciar a leitura e avaliação que conduzirão à fase seguinte: enviar perguntas aos candidatos e, eventualmente, marcar uma entrevista.

São as reflexões resultantes deste trabalho que quero partilhar com a leitora ou o leitor para optimizar a sua candidatura.

Note-se que eu não pretendo estabelecer uma regra universal válida para todas as organizações, embora algumas das reflexões sejam questões de senso comum, mas asseguro aos candidatos que se seguirem estas regras, a avaliação da candidatura à Albatroz Engenharia melhora, pelo menos enquanto eu exercer o cargo de administrador pois faço questão de ler todas as candidaturas, embora já não consiga responder a todas as pessoas.

O texto está organizado em temas ou perguntas principais e trato os casos particulares dentro de cada tema ou pergunta. Como já há muitos textos que tratam deste tema (veja as referências ao lado), incluí apenas aqueles que me parecem importantes, seja porque não estão tratados, seja porque os candidatos parecem continuar a preferir as más escolhas.

1. Para que serve uma candidatura

Uma candidatura serve tão-só para assegurar uma entrevista. Com raríssimas excepções, não se contratam pessoas que não se conheça e, directa ou indirectamente, haverá uma entrevista presencial entre a(o) candidata(o) e a empresa.

Por isso, ao escrever uma candidatura deve ter-se presente que o objectivo desta se esgota na entrevista. O volume e a organização de informação enviada devem representar o melhor de cada candidato para suscitar na empresa ou recrutador a vontade de conhecer a pessoa por trás daquele resumo.

Pode valer a pena organizar um currículo por hierarquia de temas em vez de escrever todas as entradas ao mesmo nível. Por exemplo, se um candidato tem um certificado de Alemão como língua estrangeira, merece ser indicado pela raridade que isso representa, mas já não valerá a pena indicar todas as acções de formação de um dia ou dois que se fez ao longo da vida.

Nesta orientação, a carta de apresentação ou motivação é muito importante porque lança pistas para o interior da(o) candidata(o) e mostra a pessoa por trás dos números e factos do currículo.

No caso da Albatroz Engenharia, como procedemos de forma muito artesanal, após a recepção das candidaturas e de uma primeira selecção com base nos currículos e cartas de apresentação, costuma haver uma ou várias sessões de perguntas por correio electrónico até à entrevista.

Essas perguntas permitem completar as lacunas do currículo, dar oportunidade aos candidatos de se exprimirem por suas palavras fora do texto tipificado dos currículos e suscitarem o nosso interesse para marcar uma entrevista.

2. Candidatura em papel ou electrónica ?

Decididamente, a via electrónica é preferível.

Para quem escreve é mais barata e mais rápida.

Para quem lê é mais fácil ler e compreender, de arquivar, de pesquisar por palavras chaves e até de passar a um colega.

Não me dedico a estudos de grafologia ou de personalidade e por isso não encontro qualquer valor acrescentado em cartas manuscritas. Talvez noutro meio sejam relevantes mas não lhes encontro qualquer vantagem em engenharia.

2.1 Formatos de documentos

O Adobe PDF é claramente o formato mais usado e parece-me adequado à função. O formato PowerPoint Slideshow (PPS) também é aceitável embora algumas pessoas possam reagir mal por causa do número de páginas apresentadas. O HTML é usado por alguns amantes mais empedernidos dos computadores.

Eu desaconselho o uso do Microsoft Word porque nem toda a gente usa o programa Microsoft Word e há pessoas e sistemas de correio electrónico que rejeitam ficheiros de desconhecidos neste formato por terem receio dos vírus e macros mal intencionadas. Já me sucedeu receber candidaturas com um mês de atraso porque tinham sido retidas pelo filtro de spam e vírus e só as detectei quando fui ao servidor de correio passar os olhos pelo filtro de spam antes de o apagar.

Não obstante os riscos e os filtros, continuamos a abrir os formatos todos que chegam à Albatroz Engenharia.

3. O que deve estar na candidatura

3.1 Idade?

Penso que a idade ou, melhor ainda, a data de nascimento, devem constar em todas as candidaturas. Há pessoas que receiam que publicar a idade prejudique as suas hipóteses. Admito que seja verdade em algumas empresas, não noto que o seja na Albatroz Engenharia.

Em qualquer caso, a empresa virá sempre a conhecer a idade dos candidatos e a omissão desta informação pode levar a empresa a ignorar a candidatura, passando à seguinte. Se uma empresa estiver na disposição de rejeitar um candidato por causa da idade, é muito provável que uma entrevista conseguida com a omissão dessa informação não seja bem-sucedida. Deste modo, ambas as partes poupam tempo e desilusões.

Penso que a probabilidade de alcançar uma entrevista promissora omitindo a data de nascimento é menor do que a probabilidade de perder um posto de trabalho porque a candidatura foi ignorada por falta da dados.

3.2 Fotografia?

Sendo a engenharia a nossa área de recrutamento, as fotografias não são essenciais e a maioria das candidaturas não as trazem. Mas também não fazem mal (não me lembro de alguma vez ter baixado uma apreciação por causa de uma fotografia feia). E podem ser úteis ao ajudar-nos a reter uma face no meio de centenas de candidaturas. Penso que a maioria das pessoas é mais capaz de memorizar feições do que nomes; por isso eu diria que uma candidatura (e até um cartão de visita) deveriam trazer sempre uma fotografia.

Porém, nem todas as fotografias servem. A fotografia de uma candidatura deve ser semelhante à de um documento de identificação com uma proporção de retrato do tipo 3/4 ou 2/3 (ver as fotografias da nossa equipa). Mais abaixo, há ideias sobre as fotos a evitar.

Além disso, depois da desejada entrevista, a fotografia é uma referência preciosa para localizar "aquela" pessoa.

Por vezes os candidatos enviam fotografias antigas ou, simplesmente desactualizadas, o que é fácil de compreender atendendo à rapidez com que os jovens mudam de aspecto facial. Se uma pessoa deixou crescer a barba ou deixou de usar óculos ou pintou o cabelo, mais vale actualizar a fotografia do currículo com uma versão mais recente que ajude o receptor da candidatura a associar a cara à pessoa entrevistada.

3.3 Perfis nas redes sociais?

Este é o exemplo daquilo que mesmo que os candidatos não ponham nas candidaturas, os leitores vão saber quando estiverem deveras interessados numa candidatura. Penso que ninguém perde tempo a procurar todos os candidatos na Internet mas quando aparece alguém interessante, esse é um passo obrigatório.

E às vezes as surpresas são muito desagradáveis...

Se o seu perfil não tem nada que a/o embarace numa entrevista, pode indicá-lo. Dá uma imagem mais colorida e pessoal traz por vezes respostas a perguntas mais pessoais que é difícil fazer numa entrevista e pode até servir para lançar temas de conversa.

Mas se, pelo contrário, gosta de "party all night long" e se "detesta manhãs de segunda-feira", não vai querer partilhar isso com o potencial empregador antes de ser contratada/o.

3.4 Classificações académicas?

Se forem extraordinariamente boas têm de estar presentes (resumem "o melhor de cada candidato"). Caso contrário, depende da sua atitude: ao indicar as classificações, permite que ambas as partes ganhem tempo. Se tiver poucas oportunidades e as suas notas forem médias ou baixas, devem ser guardadas para a fase das perguntas ou mesmo para a entrevista. Se tiver pouco tempo (porque está empregado, por exemplo), evita perder tempo nos casos em que o sistema de selecção tiver uma forte componente de mérito académico. Em qualquer caso, deverá levar uma cópia das classificações por disciplina para a entrevista, para que tenha oportunidade de explicar quais as disciplinas que correram melhor e pior e porquê, e quais aquelas de que gostou mais e porquê.

4. Escrever a pensar no destinatário ou recrutador

Quando uma pessoa se candidata a uma empresa deve tentar projectar-se para o lugar do leitor. Este pode ser o destinatário na empresa que procura trabalhadores ou pode ser um recrutador intermédio.

Se a/o candidata/o souber de qual dos casos se trata pode orientar melhor os documentos enviados: uma empresa está interessada só no conjunto de funções pedidas enquanto um recrutador profissional pode estar a ler um currículo para uma oportunidade e a pensar noutras.

Também é importante projectar-se no destinatário a ler o currículo para perceber onde se deve pôr a ênfase: se uma pessoa trabalhou seis anos para a empresa X-soft em diversas funções, não vale a pena especificar os seis projectos e as quatro funções em que trabalhou, excepto se uma delas for muito melhor do que as restantes. Para o destinatário, essa pessoa esteve na empresa X-soft desde o ano N ao ano N+6, tudo o resto é filtrado.

Se acreditar que o destinatário tem conhecimentos específicos da área da oportunidade (por oposição a um departamento de recursos humanos que recebe tudo de todo o lado) pode valer a pena mostrar conhecimentos nas áreas a que ele seja mais sensível (mas não vale a pena, por exemplo, despejar o nome de 30 linguagens de programação que já se contactou na vida). Por exemplo, se estiver a concorrer, a uma vaga para desenvolvimento para a Estação Espacial Internacional vale a pena indicar que se frequentou um seminário sobre qualificação e teste de software para o espaço.

4.1 Usar ou não usar o "modelo europeu de CV"

A maior parte das candidaturas que recebo segue este modelo. Parece-me um bom modelo, mas está longe de ser o único.

Tem vantagens importantes, sobretudo para principiantes: as pessoas não se esquecem de nada e vem tudo organizado funcional e cronologicamente. No caso de carreiras mais longas tem o inconveniente da organização funcional se sobrepor à cronológica, o que dificulta a interpretação: se uma pessoa fez uma formação educativa em soldadura é útil que essa referência venha junto da actividade profissional associada e não após duas páginas de experiências profissionais não relacionadas.

A minha sugestão é a seguinte: se não souber como fazer, use o modelo europeu. Se achar que tem uma solução melhor, à qual não falta a informação do modelo europeu, use então a sua solução.

Note que falta a carta de apresentação ou motivação ao modelo europeu. Este pode ser o elemento mais importante da candidatura e é normalmente o mais eloquente sobre o candidato (apesar de alguns erros apontados mais abaixo).

  1. Reflexões sobre como (não) se candidatar a uma empresa
  2. Preâmbulo
  3. 1. Para que serve uma candidatura
  4. 2. Candidatura em papel ou electrónica ?
  5. 2.1 Formatos de documentos
  6. 3. O que deve estar na candidatura
  7. 3.1 Idade?
  8. 3.2 Fotografia?
  9. 3.3 Perfis nas redes sociais?
  10. 3.4 Classificações académicas?
  11. 4. Escrever a pensar no destinatário ou recrutador
  12. 4.1 Usar ou não usar o "modelo europeu de CV"
  13. Para preparar melhor uma candidatura
  14. Para saber mais sobre a Albatroz Engenharia
  15. 4.2 Hierarquizar a informação
  16. 5. O que não deve fazer
  17. 5.1 Concorrer para oportunidades "muito ao lado"
  18. 5.2 Realçar características indemonstráveis numa entrevista
  19. 5.3 Fazer uma carta de apresentação genérica que parece personalizada
  20. 5.4 Cantar loas à empresa
  21. 5.5 Usar endereços de e-mail bizarros
  22. 6. Os pormenores irritantes
  23. 6.1 A organização dos nomes dos ficheiros
  24. 6.2 As fotografias
  25. 6.3 Os ficheiros enormes
  26.  
  27. 6.4 Os erros de ortografia

Para preparar melhor uma candidatura

Modelo Europeu de Curriculum Vitæ
No sítio Europass encontra o modelo de CV em português, que harmoniza os curricula apresentados pelos cidadãos dos vários países da UE.
Dicas do Expressoemprego.pt
Sugestões e modelos de CV adaptados aos hábitos portugueses.
Wikibooks: como fazer um currículo
Um texto simples e exaustivo sobre a organização e o conteúdo de um CV.

Para saber mais sobre a Albatroz Engenharia

Missão e valores

Resumo das directrizes da cultura da Albatroz Engenharia.

Clientes

Lista de clientes principais e mercados onde operam.

Cultura empresarial

As características que se espera dos membros da equipa de Albatroz Engenharia.

4.2 Hierarquizar a informação

A maior virtude do modelo europeu de CV é também o seu maior defeito: põe a mesma ênfase em todas as experiências profissionais ou de formação, ordenando-as por cronologia inversa. Isto funciona bem para carreiras pouco diferenciadas ou monótonas, em que a melhor referência é a mais recente ou a mais longa.

No caso de carreiras mais longas ou mais diversificadas, é possível que o leitor se desinteresse antes de chegar à parte mais valiosa, causando prejuízo das duas partes, candidato e empresa.

Por isso, sugiro que, no caso de carreiras mais complexas, se faça uma hierarquia da informação no currículo ou na carta de apresentação para que saltem à vista do leitor os aspectos mais valiosos da candidatura.

O que quero dizer com o exemplo pessoal indicado ao lado? Quero dizer que, durante um recrutamento, as(os) candidatas(os) têm oportunidade de escolher apresentar o melhor de si e esquecer o pior de si. Na fase documental da candidatura, devem pensar que dispõem apenas de uma página para chamar a atenção.

Qual o melhor uso que pode dar à sua primeira página? É assim que deve planear a organização da carta de apresentação ou da primeira página do currículo.

5. O que não deve fazer

5.1 Concorrer para oportunidades "muito ao lado"

Eu sei que o mercado de trabalho é difícil e que há falta de oportunidades. Sei também que há pessoas que, tendo aprendido e trabalhado numa área, podem ser eficazes noutras. Mas há limites: se se abre uma oportunidade para engenharia aeronáutica, um engenheiro mecânico poderá servir, mas nunca um licenciado em enologia ou um organizador de viagens aéreas para executivos.

O envio de currículos muito distantes das oportunidades acaba por desalentar os leitores e, de um modo geral, degrada a atenção que se dá às candidaturas. Cerca de 25% das candidaturas que leio em resposta a anúncios são completamente "ao lado" enquanto a percentagem de acerto é maior nas candidaturas espontâneas. Se eu poupasse esses 25% de tempo, teria mais oportunidade e boa vontade para realizar entrevistas, com benefício geral para os candidatos e para a empresa.

Por isso, peço o favor de não enviarem candidaturas só porque é fácil e barato.

5.2 Realçar características indemonstráveis numa entrevista

Chegam-me dezenas de candidaturas de jovens recém-universitários com capacidade de liderança, gosto por trabalho de grupo, auto-domínio na resolução de crises, visão estratégica, alto sentido de responsabilidade, proactividade e muito mais talentos afins.

Ninguém vai contratar um recém-universitário e pedir-lhe isso. A menos que tenha sido militar ou voluntário da Cruz Vermelha em países inóspitos, ou já tenha uma carreira profissional anterior à universidade. Mais ainda, não é possível determinar essas características numa entrevista e as capacidades dos testes psicotécnicos são limitadas.

Essas características demonstram-se no trabalho e, quando se procura alguém com essas características, procura-se entre as pessoas que estão a trabalhar noutras empresas, com mais ou menos discrição. Em resumo, não vale a pena anunciá-las.

Há uma série de actividades não profissionais que os candidatos acrescentam: actividades desportivas, passatempos, voluntariado, actividade política ou associativa, etc.. Não fazem mal algum estar lá, mas estão tão banalizadas que têm um valor muito reduzido. Dificilmente serão esses pontos a fazer a diferença num processo de selecção competitivo.

Por outro lado, dizer que se gosta "um pouco de tudo", ou dizer que se gosta de ficar em casa a ver televisão ou ainda de sair à noite com os amigos, pode criar a impressão de uma pessoa sem talentos "não profissionais" que não se destaca numa multidão. Nesses casos, mais vale não escrever nada.

5.3 Fazer uma carta de apresentação genérica que parece personalizada

Quando numa candidatura está escrito "concorro à vossa empresa porque ela é líder no seu segmento" eu leio "concorro à vossa empresa porque preciso do trabalho mas não sei o que fazem lá ".

Eu sei que é muito fastidioso mandar centenas de currículos para receber dezenas de respostas e quase todas negativas. Acredite-me, já passei por isso. Mas é totalmente descredibilizante fazer uma carta aparentemente personalizada mas escrita de forma a que sirva para todos os casos. Às vezes, este trabalho é menos perfeito e saltam à vista os erros: concorrer a uma start-up gabando a "reputação estabelecida no mercado" ou dizer que se procura a internacionalização quando a oportunidade surge numa empresa que se dedica ao mercado nacional ou até responder com uma carta "desenhada" para outra empresa: um candidato para Engª Electrotécnica esmerou-se a explicar em inglês que a sua intenção era "participating in a practical training in big Oil and Gas company".

Por isso, se não quiser ou não puder enviar uma carta personalizada, é preferível usar uma carta mais simples, genérica, dizendo,

  • sou fulana(o) de tal,
  • com formação em X,
  • "experiência na área de Y" ou "recém-formado" (consoante o caso)
  • "procuro responder à vossa oportunidade" ou "candidato-me espontaneamente" (consoante o caso),
  • a minha experiência/feito/publicação mais relevante é Z.

5.4 Cantar loas à empresa

É muito ridículo e descredibilizante ler cartas de apresentação cujos autores juram conhecer a empresa de nome, que ela é líder mundial no seu mercado, que é uma grande empresa, que sonham trabalhar lá desde miúdos, que tem uma rede mundial de delegações e depois a empresa em questão tem uma dúzia de pessoas e um escritório.

Mesmo que todos os elogios sejam verdadeiros e merecidos, o destinatário ou recrutador sabem-no e não será por esse motivo que uma candidatura será preferida face às outras.

Só vale a pena enveredar por esse caminho se isso demonstrar conhecimento específico sobre a oportunidade ou a empresa. Por exemplo, ao concorrer para uma empresa de investigação em farmácia pode valer a pena dizer "embora a oportunidade seja para a área X, eu estou muito interessado na vossa empresa porque li sobre o registo da patente da família de moléculas para as doenças Y e gostaria muito de trabalhar nessa área porque participei no estudo Alfa apresentado no artigo Z de que sou co-autor."

Volto ao ponto anterior: se não for viável estudar as empresas antes de mandar as candidaturas - e não se esqueça de as estudar antes da entrevista! - é melhor não inventar e manter uma carta sóbria. Mais vale parecer económico do que bajulador.

5.5 Usar endereços de e-mail bizarros

O primeiro contacto que tenho com uma pessoa que envia a candidatura electrónica é o endereço de e-mail. E pode ser muito negativo. Receber uma candidatura do sonhadornamontanha ou do pizzabuster é estranho, mas pode aceitar-se com bonomia. Já aceitar candidaturas de virginightmare ou de jocasangrento ultrapassa o bom senso.

Por isso, recomendo que, mesmo tendo um "nick" inesquecível ou uma grande popularidade numa plataforma de jogos ou numa rede social, prefira um endereço normal como ana.oliveira89@...

6. Os pormenores irritantes

6.1 A organização dos nomes dos ficheiros

Nas candidaturas electrónicas, é muito frequente os nomes dos ficheiros virem organizados na perspectiva do autor, o que é um erro. É mais um caso de pensar no escritor em vez de pensar no leitor de candidaturas: cada candidato só tem um curriculo no seu computador e por isso "CV" chega como identificador. Pelo contrário, cada destinatário/recrutador tem centenas, senão milhares, de ficheiros iguais. Ser capaz de os distinguir rapidamente pode ser a diferença entre um sucesso ou o esquecimento.

Se um candidato de nome João Silva chamar aos seus ficheiros CV.pdf e carta.pdf, presta-se a uma confusão muito maior do que se usar Joao-Silva-CV.pdf ou Joao-Silva-CV-portugues.pdf e Joao-Silva-carta.pdf ou Joao-Silva-CV-letter.pdf.

Além do mais, é mais fácil fazer uma busca em ficheiros ou bases de dados por Joao Silva do que por CV ...

É também importante notar que o uso de letras especiais (acentos, sinais) pode dificultar a procura dos ficheiros. Até há poucos anos a busca com espaços em arquivos de computador prestava-se a erros mas ultimamente a detecção de espaços está melhor.

 

De experiência pessoal

Uma vez, ao concorrer a uma bolsa a uma universidade, o Professor encarregue do processo de candidatura pediu-me para lhe indicar as três melhores publicações técnicas em que eu estivesse envolvido. Quando lhe disse que isso seria uma imagem truncada do meu trabalho, ele respondeu-me: "só olhamos para três publicações, mas essas serão examinadas a fundo, por isso escolhe aquelas que te parecem melhores e prepara-te para um interrogatório intenso e abrangente".

6.2 As fotografias

Nas candidaturas deve evitar-se usar fotografias demasiado divertidas, pelo menos na área de engenharia! Não é boa ideia mandar fotografias de corpo inteiro, ou em tronco nu com uma prancha de surf debaixo do braço ou de fato completo num casamento e de copo na mão.

Pode ser péssima ideia mandar as fotografias que se usam nas redes sociais! Um engenheiro que apareça a vomitar durante um fim de semana de concertos e festivais de música ou vestido de boneca de trapos não melhora em nada as suas perspectivas de recrutamento.

É boa ideia - e relativamente simples de executar com um computador - retirar os fundos demasiado coloridos quando a fotografia os tem. Se a sua melhor fotografia foi tirada na noite de Natal com a árvore de Natal por trás, então tente tirar a árvore para ficar só a alegria.

6.3 Os ficheiros enormes

Há pessoas que não sabem e outras que não notam, mas é muito frequente receber candidaturas com mais de 5 Mb e sucede-me receber candidaturas com mais de 20 Mb. Isto transborda qualquer caixa de e-mail e dificulta a gestão das candidaturas.

É muito raro justificar-se uma quantidade tão grande de dados. Só se justificaria para enviar um artigo científico importante ou um desenho técnico.

Porque é que acontece? Na maioria dos casos, resulta da digitalização de documentos ou assinaturas: os candidatos mandam os certificados de habilitações digitalizados ou uma assinatura digitalizada. Se o processo for feito com os parâmetros de impressão ou de fotografia, os ficheiros ficam enormes.

Por isso chamo a atenção para o tamanho de ficheiros a enviar.

Por vezes, quando sinto que faltam elementos relevantes para a avaliação, peço à(ao) candidata(o) para enviar artigos técnicos, apresentações e até filmes. Aí, já estou à espera de ficheiros muito maiores e o endereço de e-mail já está registado nos filtros de spam como um emissor legítimo e aceite e por isso já há menos rejeições.

 

 

Nota para os apaixonados pela fotografia digital

Quem quer levar o trabalho até ao fim, retira o efeito dos olhos vermelhos da pupila e os reflexos de flashes. Já vi fotografias que aparentemente estavam em jardins ao ar livre e que não tinham sombra na cana do nariz nem nos arcos supraciliares mas os olhos tinham caixas de luz de estúdio. Logo, eram (óbvias) fotomontagens!

6.4 Os erros de ortografia

Ainda se encontram muitos currículos e cartas de apresentação com erros de ortografia. Um erro de ortografia é uma mancha em qualquer currículo. Se é fácil perdoá-lo a um estrangeiro a concorrer para uma vaga em Portugal, já é mais difícil aceitá-lo num cidadão português.

No caso particular do Novo Acordo Ortográfico ou de candidaturas provenientes de outros países de língua portuguesa noto uma grande latitude na aceitação das variantes do Português escrito. Aliás, esta página não está conforme ao Novo Acordo Ortográfico 🙂

 

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